Cachorros latindo no entardecer. Sensação trazida pela brisa leve que cai com a noite. Farfalhar de folhas secas ao vento. Um estalido lá longe. Mais perto. Arrepio que brota na pele quando encaro o limite de uma floresta.
Foi o que ela me disse em um fim de tarde qualquer, da rigidez estrepitante de sua cadeira de balanço. Com sua voz gasta e ansiosa, contou que Eles correm ao redor do globo perseguindo a escuridão, atraídos por ela como insetos pela luz, que atravessam oceanos como se fossem poças d’água e desertos como se não existissem, que para Eles o globo é, na verdade, uma planície. Perguntei o que são, mas ela apenas balançou a cabeça e nada disse.
Conversava como se estivesse sonhando ao contrário, olhando fixamente para o nada, presa em suas próprias memórias. Naquela época, ninguém prestava muita atenção nas frases desconexas que fala, mas eu, então vítima de uma curiosidade infantil aguçada, absorvia tudo. Ainda ouço suas palavras e o ritmo de sua respiração ao falar sobre a origem dos Corredores. Está perdida em um passado infinito. Sua presença tem a ver com morte e renascimento, com transformação.
Disse, ainda, que seu movimento cíclico faz a Terra girar. Registros de sua existência surgiram e desapareceram nos buracos negros da memória coletiva ao longo dos séculos. Poucos sabem. Alguns desconfiam porque ouviram estranhas estórias e, sentados ao redor de uma fogueira, resolveram guardá-las. Alguns sonham. Alguns sentem. Alguns acreditam porque sabem que tudo o que tem nome existe. Minha bisavó era uma dessas pessoas.
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21h07min. Outra noite quente e seca acaba de começar na pequena Limea, cidadezinha produtora de poeira e miséria que insiste em existir na região centro-oeste do país. Igual a todas as outras noites neste fim de mundo aonde vim parar, pensa ao entrar no Chupacabra, único bar da região. Antes da quarta dose, já suada e soluçando, é tomada por um súbito mal-estar que faz seu corpo inteiro se contrair em alerta, deixando-a quase sóbria. Ela se levanta do banco vermelho rasgado e caminha em direção à rua, enquanto os outros fregueses do bar a observam curiosos, aguardando o momento ideal para soltar a primeira piada. Um odor estranho que se espalha. Cassandra vê a poeira sendo levantada lá fora, mas mais que isso não vê. Apenas sente e, sentindo, retorna ao bar.
01h27min. Na margem sul do Geirangerfjord, em algum lugar da Noruega, Mikah está sentado em uma confortável poltrona de veludo marrom. Tem um manuscrito no colo e uma caneta que se balança inquieta por entre os dedos da mão esquerda. Nada escreve. Depois de bebericar o último gole do chá de amora com gengibre, mantendo os olhos no papel à sua frente, ele deposita lentamente a caneca sobre a mesinha de centro. Após realizar os movimentos rotineiros àqueles que permanecem acordados quando deveriam dormir, Mikah abrirá a cortina da janela de seu escritório e olhará para a noite. Enquanto Katharine dorme ruidosamente no cômodo ao lado, ele encara pensativo a escuridão lá fora. Mikah desconfia.
03h02min. Nas ruas estreitas de Lisboa, faz frio e um gato velho e gordo é surpreendido por um carro que, em alta velocidade, apita descontroladamente. Arrancado de sua inércia, o gato se arrasta ofegante para a calçada da padaria Solar, onde é novamente pego de surpresa por um súbito deslocamento de ar. Dentro de seu corpo gasto de felino, uma minúscula veia arrebenta, provocando uma dor aguda que não falha em derrubá-lo. O gato, então caído, vê e arreganha os dentes num gesto seco de ameaça. Com o esforço, no entanto, seu corpo perde consistência e ele desliza para fora de si mesmo. Amanhã acordará em outra pele, nova e macia: seu antigo corpo será recolhido e jogado no Tejo, mas, provando que os gatos realmente têm sete vidas, ele lembrará.
12h50min. É começo de tarde em Seul e o menino Hun Iake brinca distraído com seu pêndulo de Newton. Os pais não estão em casa. Hoje, o menino não foi à escola, pois não se sentiu bem pela manhã. Sentado no grande tapete branco e felpudo da sala, lembra-se, de repente, do pesadelo da noite anterior. Imagens desconexas invadem sua cabeça, coisas esguias que mudam de lugar num piscar de olhos, formas retorcidas, rostos pálidos e esvoaçantes. Tentando fugir das sombras que correm, que correm mais do que ele, Hun vai na direção da luz nascente, mas uma delas o segura com uma mão esquelética e decrépita. No momento em que se encaram, Hun sente uma vontade incontrolável de gritar. Não grita, mas acorda chutando.
9h22min. Perto do Reservatório de Hirakud, no interior da Índia, Lalit abre os olhos com dificuldade e tenta se por de pé. Depois de alguns paços vacilantes, o menino sente uma onda de náusea que o faz deitar novamente no solo árido e quente. Lembra-se de Abhi convidando-o para explorar o parque Nehuru no final da tarde do dia anterior e do amigo falando sobre sua viagem à Inglaterra para visitar os tios. Lembra-se de si mesmo distraído chutando pedras, desejando ter parentes tão legais quantos os de Abhi, quando um silêncio pegajoso cai ao redor deles e o tecido fino da realidade se rasga, engolindo ambos. Cinquenta anos mais tarde, sucumbindo ao sono avassalador, Lalit revisita o acontecimento e grita até perder a voz, até perder a vida.

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